Sim. O estudo CHALLENGE, publicado no New England Journal of Medicine em 2025, mostrou que um programa estruturado de exercício iniciado depois da quimioterapia adjuvante reduziu em 37% o risco de morte em pessoas operadas de câncer de cólon. A sobrevida global em 8 anos foi de 90,3% no grupo que se exercitou, contra 83,2% no grupo que recebeu apenas orientação de saúde. A meta de atividade era modesta: o equivalente a caminhadas rápidas de 40 a 60 minutos, 3 a 4 vezes por semana.
Durante muito tempo, a orientação após o tratamento do câncer de cólon foi basicamente “descanse e se recupere”. Este estudo mudou a conversa: o exercício orientado deixou de ser um complemento opcional e passou a ser discutido como parte do cuidado. Abaixo estão os números e, principalmente, como era a rotina de exercícios que produziu esse resultado.
O que foi o estudo CHALLENGE?
O CHALLENGE (ensaio CCTG CO.21) foi um estudo clínico randomizado de fase 3 — o desenho de maior peso científico para testar uma intervenção. Acompanhou 889 pacientes com câncer de cólon em estágio III ou estágio II de alto risco, em 55 centros de seis países, todos já tendo concluído a cirurgia e a quimioterapia adjuvante.
Os participantes foram sorteados para dois grupos: um recebeu um programa de exercício estruturado com acompanhamento de um profissional de atividade física; o outro recebeu apenas materiais educativos sobre hábitos saudáveis. O seguimento médio foi de quase 8 anos.
Quais foram os resultados?
| Desfecho | Exercício estruturado | Só orientação | Diferença |
|---|---|---|---|
| Sobrevida livre de doença em 5 anos | 80,3% | 73,9% | cerca de 28% menos risco de recidiva, novo câncer ou morte |
| Sobrevida global em 8 anos | 90,3% | 83,2% | 37% menos risco de morte |
Para dar dimensão: essa magnitude de benefício é comparável à de algumas terapias medicamentosas usadas em oncologia — só que aqui a intervenção foi atividade física orientada, sem toxicidade sistêmica.
Como era, na prática, a rotina de exercícios?
O programa durou 3 anos e foi conduzido com apoio de um consultor de atividade física, com plano individualizado. A meta era aumentar o nível de atividade aeróbica em pelo menos 10 MET-horas por semana acima do ponto de partida nos primeiros 6 meses, e depois manter ou melhorar esse nível ao longo dos dois anos e meio seguintes.
O acompanhamento foi intenso no começo e mais leve com o tempo: nos primeiros 6 meses, encontros praticamente semanais, com sessões supervisionadas; depois, cerca de um encontro por mês, presencial ou on-line. O tipo de exercício foi personalizado — caminhada, bicicleta, natação, musculação ou aulas em grupo. O que importava era atingir a meta semanal de movimento, não a modalidade.
Um dado relevante: muitos participantes nunca tinham se exercitado antes e aumentaram o ritmo de forma progressiva. O benefício não dependeu de alta performance, e sim de constância.
O que são 10 MET-horas por semana?
MET-hora é uma forma de medir o volume total de esforço: combina a intensidade da atividade com o tempo praticado. Na prática, 10 MET-horas por semana equivalem a:
- uma caminhada rápida de 40 a 60 minutos, 3 a 4 vezes por semana (ou caminhadas diárias mais curtas); ou
- atividades equivalentes de intensidade moderada: pedalar, nadar, corrida leve ou aulas de circuito.
É um volume alcançável para a maioria das pessoas que já completou o tratamento, desde que a progressão respeite a recuperação individual.
Quais são os limites deste estudo?
Nenhum estudo isolado encerra uma discussão, e é importante ler o CHALLENGE com honestidade:
- É um ensaio aberto: não há como “cegar” quem está se exercitando. Isso não invalida o resultado, mas é uma limitação de desenho.
- O grupo do exercício teve muito mais contato com profissionais de saúde ao longo de 3 anos. Parte do efeito pode estar ligada a esse acompanhamento, e não apenas ao exercício em si.
- Eventos adversos musculoesqueléticos foram mais frequentes no grupo do exercício — um lembrete de que a progressão precisa ser orientada.
- A população estudada foi específica: câncer de cólon, estágio III ou II de alto risco, após cirurgia e quimioterapia adjuvante. Não é automático estender a conclusão para câncer de reto, doença metastática ou outros cenários.
Ainda assim, é a melhor evidência disponível hoje sobre exercício estruturado nesse contexto, e ela é robusta o bastante para mudar a conversa no consultório.
O que isso muda para quem terminou o tratamento?
Se você foi operado e concluiu a quimioterapia para câncer de cólon, o exercício orientado deixa de ser apenas “bom para a disposição”. Além de reduzir a fadiga, melhorar o humor e aumentar a força física, ele passa a ser discutido como parte do plano de seguimento. É exatamente o que a medicina do estilo de vida propõe quando integrada ao cuidado oncológico.
O ponto de partida é conversar com a sua equipe: o momento de começar, o tipo de atividade e a progressão dependem do tipo de cirurgia realizada, da sua recuperação e das suas condições clínicas. Veja também como é a cirurgia de câncer de cólon, as orientações de dieta após a cirurgia e o que ajuda a prevenir o câncer de intestino.
Atenção: este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação individual. Antes de iniciar qualquer programa de exercícios após o tratamento do câncer, converse com o seu médico. O plano ideal depende do tipo de cirurgia, da sua recuperação e das suas condições clínicas.
Perguntas frequentes sobre exercício após o câncer de cólon
Preciso virar atleta para ter esse benefício?
Não. A meta do estudo era modesta e alcançável: o equivalente a caminhadas rápidas de 40 a 60 minutos, 3 a 4 vezes por semana. O que produziu o resultado foi a regularidade ao longo de anos, não a intensidade elevada.
Posso começar sozinho em casa?
O ideal é começar com orientação, especialmente no pós-operatório. Foi o formato supervisionado que demonstrou benefício no estudo, e a supervisão também reduz o risco de lesões musculoesqueléticas, que foram mais frequentes no grupo do exercício.
Vale para qualquer estágio do câncer de cólon?
O estudo incluiu estágio III e estágio II de alto risco, após cirurgia e quimioterapia adjuvante. Para outros estágios e situações, a indicação precisa ser individualizada com a equipe que acompanha o caso.
Quando posso começar depois da cirurgia?
Depende da recuperação de cada pessoa: cicatrização, presença de estoma, complicações e condições clínicas influenciam. É uma decisão a ser tomada junto ao cirurgião e à equipe, com progressão gradual.
O exercício substitui a quimioterapia?
Não. No CHALLENGE, o exercício foi iniciado depois da quimioterapia adjuvante concluída. Ele complementa o tratamento oncológico e em nenhuma hipótese o substitui.
O mesmo benefício vale para câncer de reto?
O estudo avaliou câncer de cólon. Ainda que a atividade física regular seja recomendada de forma ampla, os números de redução de mortalidade apresentados aqui não podem ser transferidos automaticamente para o câncer de reto.
Quer incorporar a atividade física ao seu tratamento com segurança?
Fontes
Courneya KS, Vardy JL, O’Callaghan CJ, et al. Structured Exercise after Adjuvant Chemotherapy for Colon Cancer. N Engl J Med. 2025;393:13-25. doi:10.1056/NEJMoa2502760
Apresentação no ASCO Annual Meeting 2025 (CCTG CO.21 — CHALLENGE).





